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Origem e função dos CTGs

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Origem e função dos CTGs

No início da segunda metade da década de 70, cansado de ouvir patranhas e chorumelas históricas de folclóricos defensores da mumificada ideologia do passado oligárquico do Rio Grande do Sul, escrevi alguns artigos no "Caderno de Sábado", do antigo Correio do Povo, e posteriormente também na Zero Hora.

Nestes artigos procurava demonstrar, além do óbvio anacronismo dos defensores do patriciado rural sul-rio-grandense do século 19 - atenção, é século 19 mesmo! -, a falta de base histórica e o ranço ideológico de talhe profundamente conservador que caracterizavam os mitos do gaúcho heróico, da miscigenação, da democracia racial, da produção sem trabalho, etc., mitos que então - parece
inacreditável hoje, mas é um fato - eram moeda de livre curso e valor não discutido entre a sedicente intelectualidade provincial.

Um pouco mais tarde, e trabalhando na mesma linha, dei início, com o apoio da Editora Mercado Aberto e de seu idealizador e proprietário Roqtie Jacoby, à
Série Documenta, hoje referência obrigatória em qualquer estudo sobre o Rio Grande do Sul, da qual fazem parte títulos já clássicos como Cultura e ideologia, Imigração e colonização, Economia e política e A Revolução Farroupilha, entre outros.

Nesta atividade de, digamos, enfant terrible da luta pela então imprescindível modernização intelectual da Província, meus textos sempre se distinguiram - no sentido de se diferenciarem - por um panfletarismo jornalístico não raro contundente e por um estilo bastante diverso e bem menos sério daquele de profissionais da área que também abordavam questões semelhantes, como Décio
Freitas, Moacyr Flores, HeIga Picollo, Sandra Pesavento, Sérgio da Costa Franco e outros.
Tanto que, por ocasião do lançamento de RS: Cultura e Ideologia - pouco mais de dez anos depois isto parece ficção, tal foi a rapidez das mudanças históricas - houve um conciliábulo de dinossauros em que os no início citados defensores da oligarquia gaúcha do século 19 discutiram qual deveria ser a atitude a adotar diante do editor audacioso, do sacrílego livro e do ainda mais sacrílego organizador e partícipe.Demonstrando alguma inteligência, chegaram à conclusão de que a melhor alternativa era ignorar-nos a todos.

Assim, e felizmente, meus textos satânicos não tiveram resultados mais graves do que um ou dois protestos, entre os quais a carta de um conhecido e folclórico emigrado moranense amante da boa mesa solicitando à direção da editora minha imediata demissão... Piadas à parte, pouco me interessavam tais reações.Apenas uma vez fiquei de fato preocupado.

Foi quando, certa madrugada, ouvi, em uma rádio local, o grande payador e poeta Jayme Caetano Braun atacar "um tal de Dacanal", por desprezar a cultura gaúcha, ou algo semelhante.A coisa não era bem por aí, e pensei em escrever um artigo para deixar claro que o alvo de meus ataques eram construções ideológicas dos historiadores e intelectuais tradicionais da Província e não, absolutamente não,
a produção simbólica, ou até, mesmo quando próxima ou referida a tais construções.

O tempo foi passando, e como depois dos 40 são necessários fortes estímulos para produzir, em qualquer setor, o episódio resultou em nada.Há algum tempo, contudo, acicatado por fato que aqui não vem ao caso, escrevi algumas linhas em que procurava, mais de uma década depois, acertar minhas diferenças com Jayme Caetano Braun, que não conheço pessoalmente, mas a quem muito admiro por sua
extraordinária habilidade de repentista e pela renovação temática que imprimiu à antiga trova. Ao retomar recentemente aquelas anotações, delas resultou o presente ensaio.

Dividirei a exposição em três partes.A primeira, que corresponde propriamente à explicação que devo a Jayme Caetano Braun, aborda a questão das relações entre a ideologia do gauchismo e a produção artística calcada sobre a temática rural/campeira riograndense.A segunda procura explicar a origem e a função dos centros de tradições gaúchas.Finalmente, a terceira- se a bala vem, nóis se abaixemo... - entra no até pouco tempo perigoso tiroteio entre regionalistas e
nativistas.Vai-nos, pois à primeira parte, um tanto pesasa, mas indispensável.

Arte e ideologia: acertando as contas com Jayme Caetano Braun

É ponto pacífico hoje que o mito do gaúchoe seus elementos componentes- a miscigenação, a democracia racial, a produção sem trabalho, a igualdade, o heroismo, etc. - correspondem a uma construção ideológica da oligarquia rural sul-rio-grandense, construção que buscava, basicamente, dois objetivos: diferenciar-se externamente, em relação à então classe dirigente do sudeste cafeeiro e escravista, e justificar internamente seu poder, cooptando os estratos sociais médios e interiores, tanto urbanos quanto rurais. É verdade que, com sempre acontece nestas situações, o mito do gaúchotambém tinha alguns traços de verdade histórica.Afinal, houvera de fato alguns acasalamentos com indígenas nativas (a miscigenação); a oligarquia gaúcha fora, até certo ponto, em seus começos, uma sociedade guerreira de fronteira (o heroísmo); havia existido, nos primórdios, meia dúzia de gaúchos/bandidos/aventureiros (o amor à liberdade sem raízes); o esforço dos touros no pampa, cobrindo as fêmeas, fora e era parte considerável do trabalho, digamos, social necessário para formar o rebanho (a produção sem trabalho); a separação entre possuidores e despossuídos apresentara-se, até certa época, pouco nítida devido à ausência de diferenciação
sociocultural entre latifundiários e peões (a igualdade), etc.

Contudo, é essencial perceber que - traço presente em todas as construções ideológicas justificadoras das classes dirigentes, bastando lembrar dois casos tão díspares quanto a Ilíada e o western norte-americano - em primeiro lugar tais elementos de verdade histórica absolutamente já não existiam mais quando o mito do gaúcho alcança sua plena maturidade, sua forma definitiva.

Em segundo, que a função da construção ideológica baseada sobre os referidos mitos não tinha nada a ver com os elementos de verdade histórica sobre os quais ela, a construção ideológica, procurava basear-se.Até pelo contrário.Quem conhece um pouco da história do Rio Grande do Sul sabe que a mitologia autojustificadora da oligarquia rural sul-rio-grandense começa a estruturar-se por volta do final do século 19, exatamente quando a centralização e a modernização que Aufklärung castilhanista/assisista procuravam liquidar os elementos arcaicos do passado, exatamente aqueles que poderiam ser identificados corno a base histórica da mitologia que então nascia.

Mas o que importa mesmo aqui é que esta mitologia autojustificadora não só cumpriu exemplarmente sua missão de diferenciar-se externamente , diante do Rio de Janeiro, e de proceder à cooptação interna, frente aos grupos dominados, como ainda sobreviveu por mais de um século à liquidação da própria oligarquia rural sul-riograndense, liquidação da qual a Revolução de 30 e a crescente homogeneização do País a partir dos anos
50 são os sinais exteriores mais evidentes.Por Deus, ainda sobrevive!Como o provaram as fantásticas promoções realizadas durante a Semana Farroupilha de 1989.Duplamente fantásticas, aliás, por terem a chancela da Administração Popular na Prefeitura de Porto Alegre...

Pode-se discutir se esta sobrevida das construções ideológicas da oligarquia gaúcha deveu-se à sua longa e absoluta hegemonia no estado ou ao fato de seu desaparecimento ter ocorrido por inserção na sociedade nacional como um todo e não pelo confronto com outros grupos emergentes.Ou, então, a estas duas causas juntas.A verdade é que a mitologia reinava soberana ainda na década de 70, quando o Rio Grande já se integrara não apenas na moderna sociedade urbano-industrial brasileira como também no macrossistema capitalista internacional.E foi contra este monstruoso anacronismo que uma geração de intelectuais levantou-se - como óbvio contraponto aos interesses de novos grupos econômicos e sociais emergentes - por não aguentar mais ouvir múmias
ambulantes repetindo os ecos de uma sociedade há muito desaparecida.

Contudo - e este é o fato fundamental -, o ataque foi dirigido contra as referidas construções ideológicas da oligarquia sul-riograndense, contrabandeadas do século 19, e não contra a produção ou as formas artísticas e os elementos culturais que, de de uma ou outra forma, se embasavam no passado rural do Rio Grande do Sul.Tal ataque teria sido e é um absurdo, pois seria ignorar que aquilo que se chama de arte nem sempre, ou quase
nunca, tem relações mecânicas com o factual histórico.Pois se a política é a arte de mandar nos outros e a ideologia é a arte de convencer os de baixo de que obedecer é bom e de que os que estão em cima lá estão por direito, as manifestações artísticas são por natureza não-unívocas, podendo apresentar funções ambíguas, difusas e não raro contraditórias.

Por isso, tal como Stalin, nos momentos mais dramáticos da ocupação alemã, conclamou o povo russo à união invocando a Santa Mãe Rússia Ortodoxa, não seria de admirar - Deus me perdoe a comparação! - que um dia "Canto Alegretense", de Nico Fagundes, viesse a servir de hino às hostes do PT contra os batalhões da UDR, comandados pela Ana Maria Sartori.Que talvez escolhesse alguma melosa canção de Joana, pouco funcional, sem dúvida, para as duras lides marciais...

Seja como for, à parte discussões acadêmicas, eu, pelo menos - e não sei de outros que o tenham feito -, nunca ataquei a música gauchesca, regionalista, gaudéria ou seja lá como a quiserem chamar.Pelo contrário, sou grande apreciador dela, como também de Jayme Caetano Braun e de seus pares.

Tal ataque, na verdade, viria a ser desfechado na década de 70, como e por que veremos depois, pelos chamados nativistas, os quais, com razão e lógica- já que também são artistas, o que não é meu caso -, não mais se reconheciam nos mitos do passado e se viam obrigados, portanto, a criar suas obras sobre outros referenciais, que, não por acaso, eram os da desintegração dos próprios mitos do gauchismo.Mas nem eu nem ninguém tem
culpa das mudanças históricas, e o máximo que podemos fazer é não confundir alhos com bugalhos.Eu, pelo menos, não confundi.E apreciaria que o grande payador Jayme Caetano Braun o compreendesse, mesmo que com mais de uma década de atraso.

Afinal, se Lênin e seu ideal utópico do socialismo se desmancharam nos vagalhões da História, pelo menos uma de suas frases permanecerá, enquanto a natureza humana for a mesma: "O artista tem todos os direitos, inclusive o de ser expulso".E eu entendi o sentido dela.

História e ideologia: origem e função dos CTGs

Mesmo sem ter estudado especificamente as origens dos centros de tradições gaúchas (CTGs), é possível alinhar - desde que se conheça a história do Rio Grande do Sul - que devem ter nascido por volta da segunda metade da década de 40, a cavaleiro de um grande fluxo imigratório de habitantes das regiões de pecuária extensiva e suas periferias em direção aos centros urbanos, em particular Porto Alegre.Tangidos pela modernização e mecanização incipientes que se processavam em suas regiões de origem e, ao mesmo tempo,
atraídos pelas oportunidades de ascensão social oferecidas pela industrialização crescente e pela rápida expansão do setor terciário (serviços) da economia gaúcha, muitos destes migrantes não eram simplesmente peões incultos ou deserdados sociais.Pelo contrário, procedentes quase sempre de famílias de estratos inferiores da oligarquia ou das regiões mais atrasadas da campanha, alguns conseguiram não apenasestudar como também fazer carreira como profissionais liberais, pequenos empresários, etc.Contudo, fortemente marcados por seu passado agrário, sentiam-se como estranhos à cultura urbana, que - com a tradição européia já em franca desagregação - então
sofria, de um lado, forte influência do Rio de Janeiro e, de outro, se submetia à rápida norte-americanização, típica do segundo pós-guerra.

Em conseqüência, buscando uma imagem em que pudessem se reconhecer, voltam-se para seu passado e recriam na cidade um espaço cultural que os diferencie e os congregue. É curioso, mas não de admirar - pois há uma lógica profunda nisso -, que neste movimento de busca de sua própria identidade eles recuperem uma tradição bifronte: por um lado adotam elementos culturais - na linguagem, no vestiário, na música, etc. - dos segmentos sociais inferiores do campo e, por outro, assimilam, materializando-a em escala até então nunca vista, a ideologia autojustificadora e destilada pelo estrato superior da oligarquia rural do passado, cuja cultura, é preciso deixar bem claro, fora sempre rígida e rigorosamente marcada pela tradição européia (em particular francesa).

Assim nascem os CTGS, recriando, estilizadamente, as formas culturais dos deserdados do campo, mas enquadrando-as no brete ideológico em que haviam nascido, o que fica explícito nas quatro palavras-chave do movimento: galpão, patrão, peão e prenda.Sob o olhar condescendente e, não raro, irônico e até sarcástico dos representantes da elite intelectual urbana - que se diverte com suas "fantasias" e cavalgadas -, os CTGs
ficaram inicialmente restritos à capital e às principais cidades do interior, reunindo migrantes da primeira ou segunda geração, quase sempre de classe média, mas sem excluir representantes de segmentos sociais inferiores, desde que pudessem pagar o custo das pilchas, o que, por si só, sempre funcionou como barreira seletiva.

É por esta época - décadas de 50 e 60 - que, ao lado da pesquisa mais ou menos erudita de alguns folcloristas e integrantes do movimento, se desenvolve e cresce um amplo mercado - resultante, mais uma vez, do grande fluxo migratório - para a produção fonográfica, quando despontam os primeiros grandes fenômenos da dita música
regionalista, destacando-se, entre outros, os nomes de Teixeirinha e dos Irmãos Bertussi (italianos aculturados nos campos de Cima da Serra).E se durante mais de duas décadas os CTGs crescem apenas de forma vegetativa, a situação se modifica radicalmente a partir do início da década de 70, quando se disseminam como cogumelos por todas as cidades do Rio Grande do Sul e, inclusive, por Santa Catarína, Paraná, Mato Grosso e onde quer que se encontrassem emigrados do extremo sul.As origens deste fenômeno parecem evidentes.

Diante do violento impacto do processo de industrialização, modernização e integração aceleradas, processo comandado basicamente pelo grande capital paulista/multinacional com apoio do estado a partir do início dos anos 70, o Brasil tende a homogeneizar-se rapidamente em todos os setores, do econômico ao cultural.Com isso, os sistemas produtivos, as formas de vida, os valores comportamentais, culturais e artísticos do passado são simplesmente eliminados e substituídos por outros.Ou, então, sofrem profundas modificações, reordenando-se em função das novas realidades. É fácil, se considerado isso, compreender o que ocorreu no Rio Grande do Sul - e em todo o país, é evidente que de formas diversas e diferenciadas, de acordo com as características de cada região.

Repetindo, de certa forma, o que acontecera no segundo pós-guerra, mas multiplicando seus efeitos numa escala incomparavelmente maior devido ao papel exercido pela televisão, pelas estradas asfaltadas e pela intensa mecanização das atividades agrícolas, o Rio Grande do Sul foi invadido, de norte a sul e de leste a oeste, pelo rolo compressor da cultura carioca/norte-americana.Lixo ou não, o certo é que essas novas formas culturais encontraram receptividade imediata apenas nos grandes centros urbanos já mais ou menos aculturados há ditas ou três décadas.Nas médias e, principalmente, nas pequenas cidades do interior, porém, isto não ocorreu.Não
por uma resistência consciente, é claro, mas pelo simples fato de tais formas serem ali não apenas estrelas como também totalmente incompreensíveis, inclusive para os grupos dirigentes destas comunidades, quase sempre profundamente marcados pelas tradições religiosas dos imigrantes de várias etnias e confissões.Em particular italianos, por definição católicos, e alemães, protestantes ou também católicos.

É então que ocorre um fenômeno muito interessante. Perturbados com a rápida desintegração das tradições e dos valores religiosos de todas as igrejas tradicionais, mas principalmente da Católica - que, além de entrar em profunda crise, começa a renegar suas posições ideológicas conservadoras -, e incapazes de se reconhecerem nas
novas formas culturais veiculadas pela televisão, parcelas consideráveis dos grupos dirigentes destas pequenas e médias cidades do interior correm a abrigar-se sob o capim santa-fé dos centros de tradições gaúchas.Ali, na idealização de um passado que não era o deles e a rigor nem existira, mas que, de uma ou de outra forma, os marcara
a todos, fosse pelo seu próprio passado agrário, fosse por se terem difusamente impregnado de alguns elementos de uma tradição comum a quase todas as regiões do Rio Grande do Sul - churrasco, carreiradas, bailes, chimarrão, etc. -, estes grupos reinventam um espaço, por provisório que fosse, em que se reencontram e recongregam.

E foi assim que, em muitos lugares, os CTGs substituíram, corno ponto de encontro e convivência, as igrejas, as canchas de bocha, os antigos clubes, as associações de canto, etc.Há, porém, algo ainda mais interessante.Principalmente nas comunidades menores ou naquelas culturalmente mais atrasadas, os CTGs passaram a assumir
a função de espaço de poder, através do qual os grupos dirigentes se legitimavam.E é muito significativo que em algumas cidades em que já existiam CTGs há muito tempo, quase sempre nas vilas, estes teriam sido então expropriados ou invadidos por novos sócios, provindos de camadas sociais superiores.Mesmo que se diga que tais casos explícitos tenhiam sido raros, na prática foi o que aconteceu em toda parte: os CTGs elitizaram-se
rapidamente, o que resultou não apenas do custo crescente dos paramentos e pilchas mas também do violento processo de concentração de renda que marcou as décadas de 70/80.

Sobre o alastramento dos CTGs pelo interior do Rio Grande do Sul talvez reste ainda dizer que o fenômeno encontrou resistência, passiva, por suposto, apenas em algumas cidades do Vale dos Sinos, acentuamente industriais ou, na década de 70, ainda marcadas fortemente pela tradição e pela cultura alemã, e nas pequenas comunidades italianas da Serra, as quais, aliás, não por acaso, por volta de meados da mesma década começaram a reagir, retomando suas tradições peninsulares e procurando preservar seu passado.O que é coerente, pois que ali, na Serra, a própria topografia representoue representa ainda uma barreira intransponível à mecanização agrícola, favorecendo - e exigindo, por uma questão de sobrevivência econômica - a preservação e a manutenção dos processos produtivos e dos valores culturais da pequena propriedade imigrante do passado.

Quanto ao futuro dos CTGS, quer me parecer que eles se encaminham para o estiolamento.Tendo perdido sua função inicial, tenderão - já tendem - a perder também aquela assumida nas décadas de 70/80, marchando para o progressivo desaparecimento, insumidos na geléia geral da cultura urbano/industrial/multinacional/planetária.O que não quer dizer que os temas do passado histórico do Rio Grande do Sul não possam vir a tornar-se
novamente material para um surto de renovação poética e musical.Como, aliás, bem o mostraram os nativistas, tema da última parte deste ensaio.

Nativistas x tradicionalistas: se vem bala, nóis se abaxemo...

A rapidez vertiginosa com que se processaram as mudanças econômico-sociais nas últimas duas décadas no País pode levar a pensar que faz um século.No entanto, faz apenas alguns anos que quase corria risco de vida quem resolvesse entrar no violento entrevero em que se digladiavam tradicionalistas e nativistas. Procurarei analisar a natureza e a origem tanto da contenda em si quanto dos contendores.

A polêmica explodiu ou, pelo menos, assumiu contornos de séria refrega lá pela segunda metade da década de 70, tendo como estopim idéias, letras, músicas e comportamentos que, para os tradicionalistas, representavam uma agressão à uma degeneração da autentica herança gaúcha.Estes, os tradicionalistas, entricheiravam-se no Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG), que, não querendo nem pretendendo identificar-se simplesmente com os CTGS, tinha como bandeira de luta a busca, manutenção e defesa daquelas que eram consideradas as verdadeiras tradições gaúchas.Numa evidente tentativa de legitimar-se - passe o termo - cientificamente, o MTG pesquisava e divulgava formas e produções culturais ligadas à vida rural do passado sul-riograndense,
nem sempre se limitando ao espaço da campanha e pecuária extensiva, diga-se a bem da verdade, mas jamais ultrapassando os marcos da herança portuguesa/açoriana.Pois seus pesquisadores e folcloristas sempre partiram, implicitamente, do pressuposto de que os imigrantes e suas tradições não faziam parte do autêntico passado sul-rio-grandense.Apesar de os alemães, por exemplo, terem começado a chegar uma década antes
da Revolução Farroupilha...

Defensores de um passado que, conscientemente ou não, pretendiam manter estático e congelado, os tradicionalistas consideravam como deturpação ou desvio inaceitáveis qualquer idéia ou manifestação que dele se afastasse ou o colocasse em questão.Quando, a partir de meados dos 70, uma nova geração de ensaístas e, principalmente, letristas e músicos começaram a lançar a público suas produções, autoqualificando-se de
nativistas, com o explícito objetivo de se diferenciarem claramente dos tradicionalistas, armou-se o rolo.E a confusão também, pois pelo menos uma injustiça foi praticada contra os tradicionalistas: a de os acusarem de serem politicamente conservadores.Ora, tal acusação não é necessariamente verdadeira e, sempre que feita em tais situações, ela parte de pessoas que contundem história e dominação social com produção artístico-cultural e o possível uso político desta.Não há aí uma correspondência automática, como foi visto antes.

Os tradicionalistas eram - e são - culturalmente conservadores, mas isso não implica obrigatoriamente que o sejam também em política.E se os nativistas, sem dúvida, criaram o novo no plano cultural, isto não lhes dá - e nem haveria por que dar-lhes - o salvo-couduto de progressistas, seja lá o que isto signifique hoje em política.Mas
para não aumentar a confusão em vez de esclarecer a questão, vamos por partes e passemos agora à tentativa de identificar as origens do movimento dito nativistas e suas íntimas relações - sim, elas existem - com os tradicionalistas.

Na verdade, tradicionalistas e nativistas são, se não farinha do mesmo saco, pelo menos verso e reverso da mesma medalha.Para entender isso é preciso retomar novamente a meados da década de 70, quando, de um lado, os CTGs começaram a expandir-se rapidamente e, de outro, o movimento nativista adquiriu forma e consistência através do
aparecimento de uma geração de letristas e compositores de excelente nível.

É fundamental perceber que estes dois fenômenos eram resultado das mesmas condições históricas, ou seja, se configuravam como um movimento de resistência à intensa e veloz massificação e descaracterização cultural dos espaços periféricos brasileiros, invadidos pela subcultura musical-televisiva do centro do País e de seus enlatados
norte-americanos.Se é então, como vimos, que os CTGs encontram ascondições propícias para se espalharem por todo o Rio Grande do Sul e mesmo por outros estados da Federação, é também neste momento que uma nova geração de artistas - basicamente poetas e músicos, quase sempre ligados aos segmentos mais intelectualizados das classes médias urbanas, e não só da capital - se projeta, fazendo uma releitura do passado e chocando-se frontalmente com os tradicionalistas.

A posteriori, pelo menos, parece evidente o que aconteceu.Enquanto os -tradicionalistas enfrentavam a massificação e a invasão cultural entricheirando-se no passado estático, considerado por eles intocável, os nativistas também armavam seu movimento de resistência.Mas com características muito diferentes.Pois, ao
buscarem o que os tradicionalistas diziam ser o passado, deram-se conta imediatamente de que ele não era senão a idealização de uma realidade que há muito desaparecera, se é que de fato existira.Então ocorreu o que, segundo a terminologia de Hegel, pode ser considerado um legítimo fenômeno dialético: resistindo à invasão televisiva-multinacional, os nativistas criam suas obras tendo, não raro, por tema a defasagem histórica daquelas que - a crer nos tradicionalistas - deviam ser, e a rigor a eram, suas próprias raízes culturais.O que está sintetizado e genialmente expresso numa letra de Retamozzo, salvo engano, segundo a qual do passado "só restaram os velhos clichês".Clichês que, muitas vezes, se reduziam simplesmente a um léxico, que ressoa, magnificamente retrabalhado muna música cantada - de novo, salvo engano -, por Elton Saldanha, que fala nas "canhadas do meu xucro coração".

À primeira vista e já estabelecida certa distância histórica, parece não haver razão razão para qualquer entrevero entre tradicionalistas e nativistas.Até pelo contrário, poder-se-ia dizer que deviam sentir-se como aliados na luta pela preservação da própria identidade cultural.Por que então a polêmica explodiu? A resposta é que, apesar de
serem produto de uma mesma situação histórico-cultural, tradicionalistas e nativistas travavam- alguns continuam travando até hoje - um verdadeiro diálogo de surdos.E paradoxalmente sobre o mesmo tema: o passado sul-rio-grandense.Passado a que os primeiros se aferravam desesperadamente, tentando imobilizar a roda da
História.E sobre o qual, por percebê-lo duplamente defasado, os nativistas derramavam suas lágrimas, aceitando compungidamente a inevitabilidade do tempo.

É o que, de uma maneira ou de outra, sempre acontece quando os processos sociais adquirem velocidade superior ao ritmo biológico da espécie, criando então barreiras intransponíveis entre as gerações que convivem lado a lado.Seja como for, este período da música e e da poesia - ela está nas letras, algumas de extraordinária beleza - do Rio Grande do Sul ficará como o miss fértil de toda sua história até o presente.

Alguém, algum dia, sentirá necessidade de analisar com mais vagar esta época.Não apenas a época do entrevero de tradicionalistas e nativistas, mas, principalmente, a época em que o espaço cultural periférico sul-rio-grandense, melhor, o espaço sócio-econômico da campanha dedicada à pecuária, alcança o horizonte da tradição lírica
ocidental e nela se insere e se insume.Desaparecendo a seguir, depois de ter sido a última fronteira e a última trincheira ao avanço avassalador das estruturas do novo patamar tecnológico-científico do Ocidente e, ça va saus dire, da aldeia global televisiva.

Encerrando, não é possível deixar de lembrar que todas as questões aqui abordadas fazem parte de um tema maior e mais abrangente: a força e a permanênciade uma identidade regional em cujas origens está a oligarquia rural da fronteira sudoeste.Oligarquia que não apenas consolidara seu poder já no início do século 19 como também - caso único no Brasil - o manteve intacto por mais de um século, sobrevivendo às crises de 1835, 1893 e 1923 e desaparecendo apenas ao insumir-se no Estado Nacional centralizado nascido após a Revolução de 1930.Mesmo assim, porém, deixando atrás de si suas construções ideológicas, que sobreviveram praticamente intactas até a década de 1970 e continuam até hoje exercendo forte influência na vida e na cultura do Rio Grande do Sul.

Eis um tema capaz de ocupar o espaço não de um, mas de vários livros de historiadores políticos, sociólogos e antropólogos.

Fonte: paginadogaucho.com.br


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