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Vocabulário gaúcho: origem do gauchês

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Origem do vocabulário gaúcho

O vocabulário é a parte mais rica do dialeto e eu não poderia tratar nem em um ensaio nem em um trabalho universitário. Há dicionários com quase 10.000 entradas. O objetivo da listagem abaixo é exemplificar a constituição do léxico do dialeto, organizando as entradras por origem, demonstrando as diferentes influências na formação do vocabulário deste dialeto. Justamente aí e em algumas outras formas gramaticais arcaicas que se encontram as maiores semelhanças entre o dialeto gaudério e o dialeto do sertão nordestino.

Dialetos portugueses arcaicos:

Algo que distancia o dialeto gaudério do português padrão, mas que o aproxima do dialeto do sertão nordestino são justamente as muitas palavras de um português dos séculos XVI e XVII e seus respectivos dialetos. O fato de o sertão nordestino e a Província de São Pedro terem experimentado um longo período de isolamento em relação aos centros do poder português e brasileiro manteve diversas formas arcaicas em uso. 

Alumiá (PT: iluminar): existe em alguns dialetos portugueses ainda hoje
Ansim (PT: assim), antonce/entonce (PT: então), tamêm (PT: também) ou despôs (PT: depois): existem como tamén e despois em galego e em diversos dialetos portugueses.
Acabrunhado (PT: entristecido), triguero (PT: cor de trigo), folhero (PT: feliz) e outras formas que se conhece no interior do Rio Grande e no Nordeste, apesar de não figurarem no vocabulário do português brasileiro cotidiano.
Mui / hai: muitas vezes confundidos como empréstimos do espanhol (muy / hay), são de fato arcaísmos portugueses. Curioso é que no dialeto gaudério o hai é seguido frequentemente de ênclise, o que contraria a gramática portuguesa (ex: hai que ver-se).
Debuxo (PT: rascunho): encontra-se em dicionários portugueses e é corrente em galego, sinônimo de desenho.

Outros exemplos que não se tratam de pronúncia incorreta do português, senão de tesouros arquelógicos para a linguística românica seriam: obedeença (PT: obediência), pobrá (PT: povoar), adonde (PT: onde), escuitá (PT: escutar), avios (PT: instrumentos), graxa (PT: gordura), loita (PT: luta), chimarrão (em português antigo „sem açúcar“), moscá-se (PT: fugir).


Espanhol:

Morcilha (morcela) e caudilho (caudilho): tomadas do espanhol (morcilla/caudillo) à época que português e espanhol pronunciavam o ll/lh da mesma forma [ʎ].
Gajeta (biscoito ou um tipo de cuia) e jujo (erva ou erva-daninha): tomados do espanhol (galleta/yuyo) platino já com sua pronúncia típica para o „ll/y“ [Ʒ].
Algumas palavras do espanhol antigo têm significado diferente no espanhol padrão (mas igual na Argentina e no Uruguai) como guapo (RS: valente, ES: bonito) ou haragano (RS: nômade, ES: haragán = vagabundo). 
Além disso há palavras cuja pronúncia foi aportuguesada, mas o sentido manteve-se espanhol, como direito (do espanhol derecho, em português direto).
Outras palavras, na maioria empréstimos mais recentes, são ditas em espanhol simplesmente, como recuerdo, lejhos (do espanhol lejos) ou bueno (dito até mesmo por porto-alegrenses).

Guarani:

Sapucái (PT: grito), capão (PT: passo), jaguaretê (PT: onça), tapejara (PT: guia) de sapukái (grito), ka'apu'ã (espaço entre o mato), jaguarete (onça de verdade), tapejara (senhor dos caminhos).


Quíchua:

Mate (PT: chimarrão), chasque (PT: mensagem/mensageiro), china (PT: mulher), inhapa (PT: sobra, agrado extra), guampa (PT: corno), cusco (PT: cachorro, cachorro sem raça), charque (PT: carne-seca).


Línguas bantu:

Matungo (PT: cavalo ruim), macambúzio (PT: triste), surungo (PT: baile), turumbamba (PT: barulheira).


Hunsrick:

Ximia (PT: geléia de fruta), queximia (PT: espécie de coalhada), proto (PT: pão de milho), querpe (PT: quermesse). 
Em hunsrick: Schmier (geléia de fruta), Käschmier (espécie de coalhada), Prot (pão), Kerep (quermesse)
Em alemão: Marmelade, Schmierkäse, Brot, Kirmes


Talian:

Graspa (PT: grapa), galeto (PT: frango jovem), bragueta (PT: braguilha).


Crioulismos:

Por sua relativa liberdade na criação de novas palavras e a ausência de compromisso com uma gramática reguladora, aparecem palavras e expressões novas. Verbalização e nominalização são praticamente livres.
Ex: Matiá/chimarriá (PT: tomar chimarrão), parecença (PT: semelhança), quêrencia (PT: lugar que se ama, de querer = amar), aquerenciá-se (PT: adaptar-se bem a algum lugar).
Da pronúncia equivocada de outras vocábulos, surgem outros crioulismos como estrumento (PT: instrumento), alimal (PT: animal), redepente (PT: de repente), mãopatia (PT: homeopatia), tresontonte (PT: trás-anteontem), Oropa (PT: Europa), lamão (PT: alemão), paragata (PT: alpercata), redimunho (PT: remoinho).

Também existem muitas palavras que, apesar de existirem no português brasileiro padrão, têm um significado diferente no dialeto gaudério e seguem sendo utilizadas inconsciente no português rio-grandense, apesar de seus falantes não estarem cientes dessas diferencas. Ex: alcançá (PT: entregar algo a alguém), véio (adj. PT: valoroso, subs: amigo), índio (PT: um „cara“).

Também é muito rica a criação (ou transferência) de adjetivos com base nos animais e no trabalho campeiro (tendo em mente que o dialeto gaudério é um dialeto de origem rural), como por exemplo guasca (uma tira de couro cru ou um sujeito de pouca polidez), bagual (um cavalo não castrado, um homem bravio ou um gaúcho legítimo), apotrado (cavalo mal domado ou pessoa de trato difícil).

Latim:

São raros os casos, mas no dialeto gaudério também estão presentes formas latinas ou assemelhadas.
Ex: álias em vez de aliás, pro mode (PT: por causa de, a fim de), pro via de (PT: por causa de), pro causo (PT: por sinal).

Outra peculiaridade do dialeto gaudério é o uso de medidas há muito abandonadas na linguagem cotidiana da língua portuguesa, mas que permanecem presentes no falar diário dos gaúchos campeiros. Ex: sesmaria, légua, braça, palmo, sorte, quadra.


GRAMÁTICA:

A gramática do dialeto gaudério está repleta de arcaísmos, empréstimos do espanhol e das línguas indígenas e alguns crioulismos. Talvez a parte mais rica desta análise sejam os pronomes.

Le: O pronome espanhol (ou, eventualmente, uma variação do português lhe) é utilizado obrigatoriamente com alguns verbos como dá, perdendo seu significado original: vô te dá-le uma tunda de laço (PT: vou-te surrar) ou te dô-le um bife (PT: dou-te um tapa). Além disso, conhece-se na fronteira oeste a forma quedê-le (PT: cadê), que pode resultar num cômico quedê-le ele?

Se1: Como em outros dialetos brasileiros e, amiúde, entre pessoas de pouca escolaridade, o pronome se, às vezes, é utilizado como um reflexivo universal: s’ esqueci (PT: esqueci-me), se ferrô (PT: deu-se mal), s’ estropiemo (PT: machucamo-nos).

Se2: Aparentemente, não existem regras rígidas para a utilização do pronome reflexivo se com verbos, visto que o dialeto gaudério transforma verbos não reflexivos em reflexivos ou não. Em alguns casos, como possível indício de substrato hispânico, o acréscimo do pronome „se“ a alguns verbos indica um novo contexto de início da acao. Em outros casos, o dialeto gaudério pode acrescentar um „se“ onde seria teroicamente impossível e sem alterar seu sentido. Ex.: ir-se (PT: partir), acordar-se (PT: acordar, despertar), vir-se (PT: acometer). Em casos extremos mas com registro, até mesmo o verbo ser pode tornar-se reflexivo.

Pronomes de solidariedade: em alguns casos, um pronome reflexivo pode ser adicionado a uma construção ordinária para aumentar a relação mútua entre os participantes de um diálogo ou, simplesmente, para dar ênfase à frase. Ex: tu te imagina, tu não me inventa.

Um: O uso do pronome um como pronome indefinido assemelha-se ao espanhol. Ex: Um póde se pisá cu' esse treco (PT: Alguém pode machucar-se com isso).

Nós exclusivo: No guarani, existem duas palavras para nós. Ñande (eu+tu+...) e ore (eu+eles-tu). Ñande incluiu o ouvinte e ore exclui-o. Por exemplo, se eu digo „Nós falamos português“ quero dizer eu, o leitor, os portugueses, os angolanos entre outros. Se eu digo „Nós falamos gauchês“, não estou incluindo o leitor não falante do gauchês na frase. Esse „nós exclusivo“ é expressado no dialeto gaudério sem regularidade com nós-ôtro(s), provavelmente por analogia com o espanhol nosotros, que não significa nada além de nós.
No entanto, em conversas com meu antigo professor de galego Antón Porto Sánchez, um romanista que se interessou por meus relatos sobre o dialeto gaudério (nestas conversas, também descobrimos diversas semelhanças e arcaísmos), ele contou-me que o mesmo uso existe em galego (nós e nosotros). Dado este fato, não me é possível afirmar com segurança se esse nós-otros do dialeto gaudério é uma influência guarani ou um arcaísmo ibérico.

Subjuntivo: Embora o uso normal seja igual ao português brasileiro, às vezes se utilizam alguns subjuntivos arcaicos ou castelhanismos. Ex: quisera (PT: eu gostaria), quando eu passe (PT: quando eu passar), como quêra (PT: como quiser).

Sufixos: O dialeto gaudério é muito prolífico por causa de seus sufixos usados à exaustão para criar novas palavras. Alguns exemplos são os seguintes:

Coletivos: as formas abaixo geralmente representam um tom depreciativo ou carinhoso.
-edo: Chinaredo (de china), piazedo (de piá).
-ama: Gentama (de gente)
-io: Pobrerio (de póbre)

Diminutivo: Talvez uma das características mais conhecidas do dialeto gaudério seja a construção do diminutivo (pari passu com a forma portuguesa -inho) com a terminação espanhola -ito. Ex: gurizito (de guri), degavarito (PT: devagarzinho), flaquito (de flaco) ou chinita (de china - também chinoca)

Um estágio intermediário entre o diminutivo e o “tamanho total” é representado pela terminação -ote. Ex: gurizote (maior que um gurizito, mas não um guri), rapazote (maior que um rapazinho, mas não um rapaz.

Aumentativo em “-aço”: Geralmente um aumentativo de valor. Ex: cagaço (PT: grande susto), ginetaço (PT: grande cavaleiro), tirambaço (PT: forte tiro/golpe). No entanto, a terminação -aço é utilizada mais frequentemente para descrever uma ação: planchaço (de plancha = PT: golpe com a parte larga da faca), tijolaço (PT: tijolada), guascaço (golpe com guasca).

Mui: Como em espanhol e no português antigo, o advérbio muito, quando ante adjetivos, pode (no entanto, não precisa) ser apocopado em mui. Ex: mui guapo, mui acabrunhada.

Plural em „-es“: Em algumas palavras (em sua maioria empréstimos do espanhol), o plural de palavras terminadas em l forma-se com a adição de -es ao final. Ex: bagual → baguales ou baguais, oriental → orientales. Fenômeno semelhante é a adição de um a para a formação do feminino de palavras terminadas em l. Ex: (m)bagual → (f)baguala.

Sistema próprio: Como frequentemente ocorre em dialetos, o gauchês produz palavras com relativa liberdade e lógica particular, distanciando-se da língua padrão. Exemplos seriam palavras como
Ensimesmado: reflexivo (aquele que se volta a si mesmo)
Semostradera: exibida (aquela que gosta de se mostrar)
Suba: aumento (de subir, embora possa ser um empréstimo do espanhol)
Topetudo: ousado (aquele que tem topéte = coragem, cara-de-pau)
Aspa-torta: mal-humorado (alguém, cujas aspas = chifres estão tortas)
Retroir: voltar, andar para trás
Sufragante / sofrená: PT: flagrante, frear

Contrações: ocasionalmente, as palavras do dialeto gaudério contraem-se de maneira diferente da costumeira no português (inclusive do português falado no Rio Grande do Sul). Ex: p’ra os em vez de para os / pros, pel’ esses em vez de por esses, pel’ aí em vez de por aí.


TEXTO EXEMPLAR

Por fim, um texto escrito no dialeto gaudério , afim de ilustrar alguns fenômenos.

Mate do Estribo

Sempre após tê alçado a perna no pingo i já tá por saí do rancho, a miá chinoca mi alcança o mate do estrivo. 
Este costume gaúcho, – augúrio dũa boa estribada, arrancada – fa-me lembrá dum povuêro, o’ citadino, segund’ os bem-falante, que certa vez foi num' estância dond' eu era pião.
Os citadino faze chacóta dos campesino na cidade. Não sendo vaqueano do local, os guasca si enrédão nas quarta. No retruco, os citadino, no campo, págão chapetonada de dá pena. Tropéção no linguajar i se pérde nos ditame campêro.
Pra sê do tempo, se será bom o' não, se vai ventá, fazê sêca, vim chuvarada o tê otras variação, pra tudo os citadino guião-se por apareios que, voltemeia, érrão feio...
De dia o' de noite, sem relójo, não sabem calculá as hóra pelo sol o' pelas estrela... Os campêro sabe! I bueno, bamo au ocurrido co' cuéra de que le falei.
Pos o índio tinha vindo da cidade. Era um chasque do patrão. Trazia uma carta pra o capataz. Era assunto urgente. [...]

Tradução

Sempre após ter montado no cavalo e já estar prestes a partir, a minha amada me alcança o mate do estribo.
Este costume gaúcho, augúrio de uma boa partida, faz-me lembrar de um povoeiro, ou citadino segundo os bem-falantes, que certa vez foi a uma estância onde eu trabalhava.
Os citadinos fazem chacota dos campeiros na cidade. Não estando acostumados, os campeiros se complicam. Por sua vez, os citadinos, no campo, passam cada vergonha de dar pena. Têm dificuldades com o linguajar e se perdem nos provérbios campeiros.
Por exemplo o tempo, se será bom ou não, se vai ventar, haver seca, vir chuvarada ou ter outras variações, para tudo os citadinos guiam-se por aparelhos que, de vez em quando, erram feio...
De dia ou de noite, sem relógio, nao sabem calcular as horas pelo sol ou pelas estrelas... Os campeiros sabem! E bem, vamos ao ocorrido com o sujeito de quem lhe falei.
Pois o cara tinha vindo da cidade. Era um mensageiro do patrão. Trazia uma carta para o capataz. Era assunto urgente.


BIBLIOGRAFIA RESUMIDA

CARDOSO NUNES, Zeno e Rui: Dicionário de Regionalismos do Rio Grande do Sul. Martins Livreiro Editor. Porto Alegre, 2003.
FISCHER, Luís Augusto: Bá, tchê!. Artes e Ofícios. Porto Alegre, 2001.
HERLEIN, Natálio: Rodeio de Causos. Martins Livreiro Editor. Porto Alegre, 1983
PEREIRA RODRIGUES, Luiz Odilom: Entrevero de Causos. Martins Livreiro Editor. Porto Alegre, 1984.
SIMOES LOPES NETO, J.: Contos Gauchescos e Lendas do Sul. L&PM. Porto Alegre, 2001.

MATERIAIS RECOMENDADOS

Os Serranos (http://www.youtube.com/watch?v=IV5b0JXaPpw&feature=related): apesar de pronunciarem algumas coisas „corretamente“ (ou seja, tendem ao português), têm um vocabulário muito rico.

Maneco Rosa (http://www.youtube.com/watch?v=z4ufhsnBQIk): a transcrição tem muito erro, mas é um exemplo da fala da campanha.

Jayme Caetano Braun (http://www.youtube.com/watch?v=ERAD9cdVtCk): O maior pajador rio-grandense, fala o dialeto missioneiro, mas aportuguesa muitas coisas.

(http://www.youtube.com/watch?v=xTttqMUh5TE) Achei na internet por acaso, mas a letra eu já conhecia.
Walther Morais (http://www.youtube.com/watch?v=hZNTAXymkLI&feature=related)1
pronunciar de forma portuguesa algumas frases e aí se perde a rima. É até fácil de notar.

Fonte e texto: Felipe Simões Pires - RS Livre

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3 comentários:

  1. Mt interessante, tenho q voltar com mais tempo para estudar bem esse dialeto...
    Abraço

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  2. Olá muito bom.és um verdadeiro gauches chê.e gaucho é gente boa.

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  3. Parabéns pela matéria. Qualidade na pesquisa. Me vi conversando com os amigos, principalmente aqueles que estão fora do estado há algum tempo, quando li o artigo. Parabéns.

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